Cristiane Conti
3 abr (5 dias atrás)
Para Pedro Menin

Eu não sei exatamente sobre que tipo de dores vc fala, a despeito de imaginar, mas como quem tenta há um bocado de tempo, e eu falo de vidas porque sou velha pra burro, parei de me enganar e notei quase sem querer e sem pessimismo que é isso e sempre vai ser: um exercício eterno e exaustivo mesmo para aqueles tão condicionados como o cão, os choques e os biscoitos. Acho quase desumano tamanho sacrifício por um biscoito, nosso e do cão, mas também sou pollyana suficiente pra achar que hora dessas melhora. Não imagino como mas sei que a vida tem seus revezes extraordinários e somente continuo mesmo exausta porque alguma esperança me nutre o tronco quase seco.

Pedro, eu sei sobre a solidão e falo da cadeira de quem viveu sempre só. De quem aprendeu antes, de quem se aprisionou em sua própria velocidade. Meu tempo é outro. Tudo é mais rápido no meu mundo, mas o mundo segue na mesma órbita gravitacional de sempre desde os primórdios. E as pessoas, ah, as pessoas vão mais vagarosas do que nunca. Virou tudo baiano, sem sua dulzura.
Esse meu tempo comove as pessoas e me maltrata, pq ninguém acompanha e então a solidão é fatal. Não percepção, mas fato: eu sem maldade afasto as pessoas. Elas tem medo.
Sempre soube disso, também achei que algum jeito meio mágico algo mudaria, teria gente de meu planeta querendo participar do meu mundo, ou gente bravamente corajosa. Creio não ter porque ainda me pego chorando discretamente na fila do ônibus.

A solidão de existir no lugar em que existo, e imagino, vc existe, é de long pior que a do sorvete e que as dores agudas. Essa é crônica e latente, não dá pra fugir com a técnica gasparóide do foda-se.
Eu sempre disse não entender porque precisávamos aprender tanto pra nos desenvolvermoa tanto pra sermos pessoas tão mais competentes pra lidarmos com mais fluência com nossas dores, missões e aprendizados porqus todos sabemos que quanto mais conhecimento detemos tão maior é nossa responsabilidade e tão mais distante dos civis estamos. E então o que resta? Falar sozinho. Porque as pessoas não se interessaram em passar por tudo que nos interessamos e sobra a comoção ao nos observar, eventualmente até com certa admiração, e o eco de quem fala uma língua morta em tempos de teclado.

Eu não sei o que fazer comigo, mas continuo.

Que bom que vc tem o Caio.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog